29/10/09 - 00:16

um pequeno pedaço de "eu te quero muito"

vamos brincar de amor sincero
completo, ardente e incondicional.
enlaça o meu corpo
e me sente tremer e suar
enquanto te fito, te leio
como um livro.
vamos brincar de amor profundo
e cheio de travessuras
pensamentos
ante uma pequena vela vermelha
ardente e forte como um fruto proibido
flamejando com fogo desconhecido,
desconhecemos a origem daquele fogo:
teríamos riscado um fósforo
ou o pavio entrou em chamas com nosso próprio
fogo
humano?

vamos brincar de amor forte
molhado e sentimental
enquanto aos poucos te vejo aberta
e entregue, pronta para as minhas carícias,
às quais vou como um menino diante do doce
o doce mais doce e mais gostoso.
sim, sim: me abraça e te entrega
na tua mente de menina
e teu corpo de mulher.
vamos brincar de amor foguento
irradiante e feliz
enquanto teus dedos tateiam minhas costas
e um quadro de um casal à parde
testemunham todo aquele fogo
incendeando lençóis

incessante e entregue
age desta forma
rápida e deliciosa até
a hora em que atingimos o clímax.



só então estamos plenos e completos.

28/09/09 - 02:35

não, a vida não é boa, ela raramente é, raramente te mostra o lado bom dela, e deixa tu te aproximar aos poucos, como uma mulher sedutora o faria, e elas sabem fazer isso de forma categórica, e quanto tu finalmnte consegue chegar perto o suficiente pra tocar, pra sentir um pouco de calor uma vez pra variar, ela escapa em pequenos risinhos, de olhos fechados e com a mão na boca, pra depois te olhar com uma cara de inocente, como se não tivesse feito nada, pra então recomeçar. eu não me sinto exatamente triste, mas não tenho grandes motivos pra estar feliz. eu acho que na verdade isso tanto faz. de repente aprendi a não ligar mais pras coisas, sério. uma delas veio aqui hoje, e me encheu o saco, como todas elas fazem, porque quando não estão sendo sedutoras, elas servem apenas pra te encher o saco e nada mais. ela me torrou a paciência e foi embora, mas de uma certa forma eu não ligava, eu não queria saber daquilo ali. não era mais a minha praia. e por um momento isso me fez sentir incrivelmente bem. irônico, não? quanto menos a gente sente, mais feliz vai ficando. quando ela foi embora eu simplesmente fechei o portão e voltei pra casa, como se tivesse aberto a porta pra qualquer estranho, não tinha nada de especial.

eu sou constantemente atacado por crises de má sorte, especialmente crises de má sorte que lidam com o campo dos sentimentos. no meu caso, na verdade, não é um campo: é um abismo. e é tão profundo que é que nem um daqueles do super mário, que se tu cai, morre antes mesmo de atingir o chão. é cômico e triste ao mesmo tempo, é quase uma comédia grega. eu liguei pra mãe de uma delas hoje e disse tudo que eu queria dizer, ou tudo o que precisava ser dito e... bem, ela vai provavelmente ler isso, vamos fingir que é um conto, e que eu – no caso o interlocutor – sou na verdade um personagem, em um capítulo de um livro, escrevendo uma carta ou fazendo um monólogo sobre si mesmo, mas não é o braga, apesar de que hoje mais do que nunca eu tenho certeza de que é o braga. enfim, tudo o que precisava ser dito. sim. isso não fez nenhuma diferença, eu acho que ainda serei ignorado e cortado fora da existência dela. antes o problema era a mãe, agora é eu. mentira, acho que sempre foi eu.

tem um anel no meu dedo com as palavras “forever love” e dois bonitos coraçõezinhos posicionados carinhosamente entre as palavras. sim sim, pode rir, eu espero. já riu? ah, ainda tá rindo? tudo bem. enfim, como eu ia dizendo: que grande porcaria não? eu não sei por que eu estou usando isso. acho que porque um lado de mim acredita que alguma coisa pode dar certo e que um pôr-do-sol muito belo vai vir e eu vou saltitar de volta pra casa, cantando a música romântica mais linda que eu conheço super alto. a segunda parte – e a que eu costumo acreditar – simplesmente acha que é estiloso, e a terceira parte já não liga. eu pediria a opinião da quarta, mas ela está em coma faz um tempo, ou simplesmente hibernando, ou talvez eu esteja ficando maluco mesmo e deva ir dormir. e tu também.

30/08/09 - 01:33

- às vezes, sabe.
- às vezes o quê?
- sei lá, tu parece meio desacreditado.
- o que tu quer dizer?
- tu não acredita na vida, nas pessoas e etc.
- acho que não mesmo, mas isso é sempre.
- isso parece ruim.
- acho que tanto faz.
- como todo o resto...

na rua encontravam-se pequenos bonecos daqueles que encontramos nas estampas de portas de banheiros, todos cinzas, caminhando de forma igual, sem nenhum erro. todos falavam uma língua incompreensível e alguns carregavam pequenos cachorrinhos. os prédios eram todos de uma cor estranha, meio avermelhada e não tinham portas, somente janlas, mas não havia ninguém lá, naqueles cômodos, e naqueles cômodos não havia móvel algum. o chão e o céu confundiam-se em um cinza pálido e que lembra desencontro e chatice, quase ao mesmo tempo.

pareciam repetir os mesmos códigos depois de um tempo, e esboçar os mesmos movimentos, como se fossem robotizados e estivessem programados para fazer aquilo. os cachorros mijavam preto em bancos cinzas. e lá no topo de algum desses prédios sem portas alguém tocava um violão, adicionando uma trilha sonora com sentimento algum à vida alguma, com poesia alguma, alegria e tristeza alguma. sonoro tédio.

ele tinha motivos para desacreditar.

05/08/09 - 23:35

Às vezes aproveitar as coisas simples que a vida coloca na nossa frente parece ser tão ridiculamente fácil que se torna difícil, de um certo modo. Caminhavam pela rua, conversando.

- Cara, sinto-me como um porco solteiro.
- Te entendo.
- Quero dizer, vou chegar em casa, pegar uma cerveja e sentar na frente do computador. Acho que um porco solteiro sentaria na frente da TV.
- Não, nós somos a geração do computador, a da TV foi a dos nossos velhos.
- Ah, sim, verdadeiros mártires.

Se despediram e separaram-se. O porco dobrou à direita e então começou a caminhar, a quadra era longa e as nuvens foramavam um bonito desenho com o céu. Era uma daquelas noites em que a gente só queria caminhar e deixar que nossas pernas nos guiassem. Passou por um bando de infortunados maloqueiros, em frente à uma praça, enquanto colocava a mão nos cabelos crespos.

- Ei! É piolho! – Disse um deles, enquanto passava um baseado e todos riam a sua
volta.
- Cabeça de microfone! – mais risadas.
Seguiu caminhando. Em parte porque não ligava e em parte porque realmente não podia lidar com várias pessoas de uma vez só. Caminhava a passos lentos, ainda um pouco longe de casa. Parou num bar para comprar uma lata de refrigerante. O lugar caía aos pedaços. A dona caía aos pedaços. A lata de refrigerante parecia estar bem, apesar do estranho gosto de cítricos num refrigerante de cola. Tudo bem, a noite estava realmente agradável e um refrigerante estranho era um preço relativamente baixo a se pagar.

A longa avenida seguia vazia. Maloqueiros e derrotados escondiam-se pelos cantos, sentados, esperando por nada, com uma cara de derrota: todos deviam lidar com o próprio inferno. Contornou a esquina e seguiu caminhando, dessa vez estava em uma rua realmente vazia e pouco iluminada, sentiu-se bem. Olhou para cima e viu uma cruz brilhando em neon azul, e mais atrás uma antena de aviões cintilando em vermelho à frente do acinzentado das nuvens. “Só eu vejo uma ironia nessa imagem?” pensou. Provavelmente sim. Se sentia vivo em muito tempo, como em um momento de êxtase, uma felicidade impenetrável, a passos cada vez mais lentos, chupando o misterioso líquido pelo canudo verde.

Cantarolou pelo resto do caminho. Passou por uma igreja e uma floricultura. De repente tudo parecia irônico ou fazia algum segundo sentido muito estranho. Uma igreja e uma floricultura, hum...

Chegou em casa, foi ao banheiro e tomou um banho. Pegou uma cerveja e sentou-se na frente do computador. Se sentia um porco solteiro. Era um porco solteiro. Estava contente com isso...

Pensem comigo, vocês não acham que a pior das ofensas que uma pessoa pode dizer para outra é "continue assim"? Talvez "você é muito simpático" seja pior, mas "continue assim" é como um chute no saco, hein.

25/05/09 - 22:01

Caiu no chão. Batia em seu vestido azul em uma tentativa vã de limpar toda aquela poeira encrustada na queda. Curiosa, pensava onde estava. Estava perdida? Encaracolava uma das mechas do cabelo loiro enquanto fazia-se perguntas de onde estaria. Se levantou e começou a caminhar pela rua, desnorteada, procurando por alguma coisa que pudesse compreender, mas tudo parecia brilhar em meio à sujeira e pessoas. E que pessoas! Pareciam tão enfadonhas e espantadas ao mesmo tempo com a presença dela. Como se nunca tivessem visto uma pequena garotinha em um vestido azul antes. Tudo bem, estava um pouco suja, mas ainda assim, pelo menos 80% apresentável. Ainda assim, fitavam-na com espanto. Um espanto que quase fugia, perdido na tristeza nos olhos daquelas pessoas.

O sol parecia brilhar no céu um pouco nublado. Garotinhas do seu tamanho passavam por ela, fitando-na com um misto de curiosidade e admiração. Ela tentava fazer trejeitos e agradecer, tentando parecer o mais comportada possível, mas pobre pequena, tropeçou em uma pedra enquanto caminhava. Ergueu-se, torcendo para que ninguém tivesse visto aquilo. Que ridículo! Uma menininha comportada como ela não podia cair assim em meio às pessoas. No começo, achou que realmente, ninguém havia visto, mas depois parou de iludir-se, e entristeceu-se com o fato que acabara de constatar: encontrava-se em um país de desgraças onde ninguém ria.

encontrava-se aqui.

25/05/09 - 21:42

- Seu grande filho da puta!

A única coisa não embriagada e significativa jogada contra aquelas paredes azul celeste. Às vezes a gente tem que ficar a vida toda procurando alguém que jogue os dados tão bem quanto nós, para então tentar ser feliz. Às vezes a gente passa a vida toda jogando dados sozinho, jogando bem, mas jogando sozinho. Às vezes a gente erra uma jogada e acaba comendo uma panela cheia de merda e apodrecendo no horizonte do pretérito das mentes de pessoas que conseguem sentir a chuva na rua, porque você gastou tanto tempo jogando pessoas e dados que esqueceu-se de como é ter alguma sensação.

- Eu sou muito mais homem do que tu é e vou quebrar essa tua cara!

Segurei braços embriagados com uma cara séria e curiosa, olhando para os outros, sem saber o que fazer, era apenas o começo, então vieram as lágrimas, que não poderiam faltar, elas sempre estão presentes, são os espectadores eternos de todas as cenas significativas: engraçadas ou tristes. Sempre apoiadas na pele, assistindo ao espetáculo, momentos antes de secarem, uma vida breve, porém divertida. Minha vontade era de devolver a destreza com minha mão cheia naquela face, mas me manti calmo e curioso, evitando qualquer ímpeto. Acabamos apenas eu e meu amigo, além de um terço de uma garrafa de refrigerante ocupada com cachaça e suco de uva. Conversamos por um longo momento. Não me sentia triste nem feliz, a vida seguiria, sempre nesse padrão, uma sequência randonômica de fatos não-ligados entre si.

Dormi. No dia seguinte precisei acordar cedo, ir para um determinado lugar, algum lugar. Uma carona. Uma campainha. Uma porta trancada. Uma chave quebrada e uma porta emperrada. O chaveiro ficava a umas cinco quadras e uma lomba de distância. Suspirei e segui, era apenas sábado de manhã, lembrei-me do dia passado. Segui pela rua, como um trabalhador pega o ônibus matinal para o ofício...

30/04/09 - 23:56

A menina do pomar de abelhas

Embriagada. Embriagada de cerveja loira como os cabelos, que outrora iam até os ombros. Riu-se nos pensamentos confusos quando deu por conta de que já estavam pelo cotovelo. Era noite. Sentou-se no pomar, observando as estrelas que dançavam num céu escuro, desenhando qualquer coisa que ela não conseguia assimilar. Ao topo do pomar ficava uma colmeia. Olhou pela primeira vez para a colmeia que nunca havia reparado em quase duas décadas de vida. Sempre esteve ali, e provavelmente estará por mais duas quase-décadas. Sentiu que invadia o espaço das abelhas. Ficou com medo de ser picada, mas não conseguia levantar, estava embriagada, com cerveja loira como seus cabelos e um coquetel azul como os olhos.

De repente pôs-se a pensar. Estava tudo tão claro, conseguia assimilar tudo, e tudo era genial e brilhante. Era tudo um segredo revelado. Lembrou-se do passado, de tudo aquilo que fazia ou que deixara de fazer. De uma forma era engraçado, divertido, mas de outra, tão triste. Sempre foi tão triste reviver aquilo que não pode se viver de novo, era como estufar os pulmões com um ar diferente, que maltratava o interior. Não era mais divertido, era simplesmente triste, mas de uma tristeza gostosa. Escorreu pela face uma lágrima embriagada, tão embriagada quanto ela. Tudo aquilo que jamais seria visto, e tudo aquilo que jamais seria vivido... novamente.

Então era tudo alegre, era tudo bom e as estrelas desenhavam caras sorridentes na escuridão do céu. Olhou para os lados e riu, ainda com a face molhada. O inventário de quase duas décadas de vida: embriaguez, lembranças e uma risada. Era gostoso. Pessoas gastaram duas décadas estudando para morrer, ela, embriagada, ria e chorava ao mesmo tempo. Tentou levantar-se, enquanto ria, mas não conseguia, o chão parecia mover-se de propósito, gritando “fique aqui”. Ela ainda invadia o espaço das abelhas. Pobres abelhas. Ela era uma grande filha da puta, certamente ficaria puta se alguém viesse invadir o seu lugar. Era tão cômico e bêbado que ela só fez rir. Só podia rir, era o que tinha no seu inventário.

Então parou de rir, colocou a mão na barriga, sentiu uma brisa secando a face molhada e adormeceu. O mundo ainda girava, a ressaca viria, mas aquilo era tão sublime que adormeceu como se as abelhas não fossem se importar. Talvez elas não se importassem mesmo. Estava tudo bem, o vento ainda batia na sua face.

À Caroline