23/10/08 – 23:04

E se um dia me perguntassem
mas você nunca sonha?
eu perguntaria que diferença isso faz
se no fundo todos os sonhos são apenas
o remanescente daquilo que sabemos
que nunca iremos realizar?

E se me perguntassem
se eu gosto de viver
eu perguntaria que difrença isso faz
já que eu não escolhi viver
e, quem me dera pudesse
eu escolheria ser um livro na estante

Eu seria o livro que seria lido uma vez
apenas uma vez, por todos os membros da família
todos os alunos
todos os freqüentadores da biblioteca pública
e ainda assim, não ficaria triste
de ficar em uma estante
exposto à curiosidade humana

E então depois das eras
as traças me devorariam
pouco a pouco
mas talvez eu nem sinta
seria apenas um pedacinho de conhecimento
que já foi passado
e esquecido
por todos

E se me perguntassem porque eu gostaria tanto de ser um livro
eu perguntaria
quem não gostaria de ter a confortável certeza
de que as pessoas curiosas te olhariam, memorizariam
e então te esqueceriam
na semana que vem?

Bonanza

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Olhou em volta, sentada na sua sala de estar. O que havia conquistado, naqueles 73 anos? Muito, sem dúvida. Muito mais do que achou que jamais ia conseguir. Sentiu-se feliz, como se tivesse recém visto a felicidade da terceira idade pairando como uma mosca no seu braço. Coçou o brigode branco e observava o tapete de pavão na parede. Era feliz, sentia-se assim, depois de um bom tempo.

A morte estava no vão da porta, olhava para ele, quase  impaciente, caminhando pela casa inteira, seguindo-o. Cada passo mais impaciente que o outro. Não podia fazer nada, ele lhe escapava há anos. Sempre que a morte tinha uma oportunidade de chegar perto, ele fazia consultas. Evitara uns cinco ataques cardíacos até agora. Seguia vivendo, porém agora era feliz, mesmo com todas as adversidades de sua vida e sua família.

Seu neto se aproximava. Já estava grande, enorme. 16 anos. Criou-o desde pequeno. Ele sempre amou o avô incondicionalmente. Agora só era capaz de vê-lo como velho incapaz. Cego, não via a morte ali, no vão da porta, enquanto achava seu avô, outrora tão amado, um velho inútil e lento.

Pensou em dizer algo ao neto, contar uma história a ele. Mas não, ficou quieto. Apenas olhava para o neto com uma felicidade quase irritante, enquanto coçava a grande barba branca. Não imaginava o motivo pelo qual seu neto veio sentar-se com ele à sala, sempre evitava o contato e a “ignorância idosa”. Apenas ficou sentado, sem cara alguma. Nem triste, nem feliz, apenas observando o ambiente, o tapete de pavão, mais velho do que ele.

O velho sorria e pensava, e olhava para a morte, ali, no vão da porta, com olhos vermelhos e impacientes, enquanto a felicidade à ofuscava, em sua glória plena. Nunca havia atingido este nível de felicidade. Sorria sem parar, e divertia-se com as duas moças à sua frente: uma rindo e outra sorrindo. De repente, fitando ambas as moças, presenciou um ato trágico, mas ainda assim, feliz: As moças fitaram-se, pela primeira vez, ao contrário de outrora, quando nem pareciam notar-se. Então sorriram e abraçaram-se, e viraram uma única criatura, ainda mais bela e imaculada, de cor limpa e brilhosa, um branco azulada. O velho compreendera. Uma lágrima caiu de seu olho, enquanto sorria, ainda estupefato.

Levantou-se. O neto nem mesmo percebera a lágrima que caía de seu rosto, que pingou no chão. O velho deu-lhe um beijo e um abraço, sem dizer nada. Então seguiu para o seu quarto, pegou uma caneta e começou a rabiscar um papel. Fez isso por um longo tempo. Seu testamento. Fazia com um sorriso.

Semanas passaram-se, começou a sentir uma dor embaixo do coração. Devia ir ao médico, mas então olhou para a moça, bela, de cor azulada brilhante, que sorria para ele com um sorriso verdadeiro, ainda mais alegre que o da felicidade. Não fora ao médico e sorrira de volta para a jovem moça imaculada.

O velho morreu dois dias depois. Morreu em paz, morreu feliz. E foi quando todos ficaram tristes, e finalmente viram o que devia ser visto.

19/10/08

For P.

Topei com o P. na rua. Não tinha pressa, andava sempre igual, com Ray Ban e um caminhar de rock star mais ou menos fajuto:

- E aí, cara – cumprimentei-o.
- Fala, cara. Tudo bom?
- Tudo sim, e contigo?
- Sei lá, acho que estou em Stand By.
- Que Significa?
- Nenhum sentimento, me sinto vazio.

Parei e pensei. Uau. Quem me dera eu não tivesse nenhum sentimento.

- Pra onde tu tá indo? – Perguntou
- Sei lá, e tu?
- Pra casa, mas não quero.
- Vamos caminhar pra algum lugar.

Não tinha problemas para sair com as pessoas. Não entendo porque todo mundo acha que escritores têm que se sentir sozinhos e odiarem o mundo. Tudo bem, eu odeio o mundo, mas sentir-se sozinho é uma coisa opcional, e tá sempre enxendo o saco. Tá bom, deixe-me voltar ao texto. Entramos em uma lanchonete e nos sentamos.

- Bah, cara tenho uma boa – Disse ele.
- Manda.
- Eu tava na casa daquela guria que eu comi, sabe?
- Sei
- E aí tava um primo de merda dela, saca?
- Tá, saco. E aí?
- E aí que o cara tava com uma guitarra e ficava tocando e falando, e eu ali louco pra fazer alguma coisa.
- E tu não deu umas nele?
- Não, ele falava que tinha sido expulso da banda dele, e que ele ia pegar os caras, depois ia ficar melhor do que eles.

Dei uma calma risada.

- Aí, eu ali, louco pra fazer alguma coisa e ele ali, né. 
- Tá, e o que mais.
- Não, saca só, agora é a melhor parte. Do nada faltou luz, e o cara não parou de falar. E adivinha o que eu fiz?
- Meteu uma nele?
- Não, peguei a guria ali mesmo, no escuro.
- E o cara ouviu?
- Não, ele tava tocando guitarra.
- Puta merda.
- É, aí eu quase comi a guria, mas claro que não ia dar pra fazer sexo.
- Tu tinha que mandar o cara à merda, meu.
- Pois é, pois é. E tu me conta o que?
- Nada, cara, eu to na mesma, sempre na mesma
- Tu é tranqüilão, cara.

Eu podia dar um milhão de respostas que justificassem o fato de eu não ser “tranqüilão”, mas escolhi a melhor delas:

- Aham.
- Escuta, tá afim de tocar amanhã?
- Aham, vamos tocar alguma coisa.
- Tá, to indo nessa. Falou, cara.
- A gente se fala.

P. saiu com aquele andar de quase gênio do rock pela rua. Vejo ele como um solteirão eterno, tranqüilão, fumando baseado às quatro da manhã, depois de escrever uma música sobre mulheres. Os primos nunca se dão bem, e as mulheres são traiçoeiras, mas isso até fazermos elas pensarem que nós somos os caras. Eu não sei muito disso, P. sabe mais, afinal de contas, eu não consegui bolinar uma fêmea na frente de alguém sem que ele note. Pedi um refrigerante e P. sumiu de vista.

06/05/08 - 21:30

O remanescente da minha infância/Bukowski sempre será meu herói

- Já era, magrão.
Era apenas um caso, mas havia acabado. Apenas um caso. Talvez eu fosse incompetente demais para levar isso além, como um relacionamento de verdade, um simples caso. Talvez depois disso eu devesse me portar como o escritor que tenho tentado ser, acendendo um cigarro e descendo pela rua, sozinho, no frio, mas estava um calor do cacete, eu estava no meu apartamento – cujo condomínio era pago pelos meus pais – com roupas normais, em frente ao meu telefone, com uma cara estarrecida de imbecil, não acreditando em nada.

Fui para a cozinha fazer alguma coisa e me lembrei dos momentos de gozo. Os momentos suaves e delicados de gozo, que não são o sexo nem as malditas coisas simples da vida, mas algo que está perdido no meio disso, em um balanço perfeito, dançando como uma bailarina com pés de açúcar. É algo que sozinhos não conseguimos descrever, mas quando podemos tocar na bailarina, estamos ocupados demais contemplando-a para poder descrevê-la. Talvez apenas sentindo, poderia lembrar-me da face da bailarina mais uma vez.

Eu não sabia o que fazer, era uma sexta feira, e tudo parecia nostálgico e triste ao mesmo tempo, o que não é difícil. Engraçado o meu estado de espírito naquele momento. Eu tinha a faca e o queijo na mão, e apenas precisava seguir a minha vida, passando por cima de um caso que nunca daria certo, mas era simplesmente muito difícil. É mais fácil achar desistentes do que nuvens. E se esses desistentes de fato não desistem, tudo bem. Se eles desistem, está tudo bem também...
Pensei em algo para fazer. Pensei em ligar para algum amigo e sair à noite. Eu tinha um monte de amigos. Tinha. Era simplesmente ligar para eles e chamá-los, mas naquele momento eu sentia muito ódio da humanidade, achando que todos nós tínhamos espíritos podres que fedem a merda. Sentei-me no sofá e fiquei pensando, não tinha pressa alguma. Ia sair sozinho, pronto. Esperei até as dez e saí porta afora.

Acho que queria me acabar. Mentira, eu não sabia o que queria, raramente sabia. Apenas saí caminhando para algum bar onde costumava ir aquele tipo de gente igual ao meu caso anterior. Talvez eu quisesse outro caso sem futuro. Podem me culpar, chamem as autoridades, seus malditos. Não sei de nada, só sei que começou numa caipirinha e o fim só deus sabe, não lembro o que fiz, não lembro de basicamente nada. Devo ter feito alguma coisa muito louca, porque quando estou de porre e chapado faço coisas muito loucas, meus amigos vivem me lembrando isso. Então eu me acabei e acordei. Era o melhor morto que estava vivo de todos.

Acordei ao lado de uma daquelas que já não tem mais alma há muito tempo, nua, na minha cama de casal, no meu apartamento – cujo condomínio era pago pelos meus pais – dormindo, calma, quase morta. Resolvi não interromper. Antes pudera, nem sabia como ia chamá-la. “Ô, mina, levanta aí”. Eu não sabia o seu nome, e, bem, tudo bem, ela podia guardar o nome para ela.
Levantei-me para ir ao banheiro. Sentei-me na patente. Minha biblioteca ficava no banheiro, era o melhor lugar para se ler. Peguei um Bukowski. Acordei a moça da qual eu nem sabia o nome com sonoras risadas. Não importa, existem mais desistentes no mundo do que nuvens no céu, mas o Bukowski sempre seria meu herói, e aquilo bastou pelo momento...

01/10/08 - 21:52

Floresce tudo pela cabeça. Acho que se eu não tivesse idéias seria melhor, se eu não tiver idéias é melhor para todos, se vocês me entendem. Acendi um cigarro e desci pela Santana, com a mala na mão e a mochila nas costas. Tinha 50 pila, idéias na cabeça e precisava arranjar um emprego. Continuei descendo e encontrei uma pensão. Entrei, a dona era uma senhora de cabelo branco que me lembrava uma daquelas mexicanas invocadas. Paguei uma semana adiantada e ainda fiquei com 30 pila. Saí pra rua, precisava de um emprego, precisava ser um cara honesto e trabalhador, como todo mundo descente que quer morrer feliz e ter filhos. Mentira, eu estava fodendo para a moral e os bons costumes. Queria ser um escritor e talvez, mas só talvez, honesto. Em compensação, estava cansado do grupo dos escritores. Um bando de caras que está sempre junto porque nunca tem coisa melhor para fazer, sempre encarangado em um canto, falando sobre literatura, porque nunca lhes foi apresentado algo que merecesse um mínimo de interesse deles além da literatura. Desnecessário lembrar que todos eram virgens. Precisava de uma mulher também.

Continuei seguindo pela Santana, chegava perto do parque, quando vi uma ruiva que passava. Conversamos meia hora sobre coisas fúteis, ela se revelou feminista, dentro das pessoas cultas e alternativas de Porto Alegre que me enchem o saco e foi embora. Depois me deu o telefone dela e eu joguei fora, dificilmente ia comer ela. Cheguei ao ponto mais agitado do parque e me lembrei de que não devia estar ali, porque aquele pessoal careca, com óculos e roupas descoladas estava lá, falando de filosofia, normalmente girando em torno da pergunta de grau e cunho filosófico mais alto que eles jamais atingiriam com suas roupas e caras: ‘como tem gente nesse mundo, né, meu?’ A vida de escritor era um saco, comecei a pensar em arranjar um emprego que tivesse menos má-fama do que escritor, talvez atendente de um e 99 me ajudaria.

Fui para casa, comi alguma coisa picante e temperada que a velha mexicana me serviu, vi um amigo que morava ali por perto, conversamos sobre a dificuldade das coisas e como era morar sozinho. Ele ainda morava com os pais, e era mais velho do que eu, que tinha 18. Entrei no meu quarto, tirei meu chapéu e comecei a escrever alguma coisa, ao som de algum CD que eu tinha ganho de alguém. Pois foi a melhor parte do dia para mim, senhores, e, querem saber? Eu excluiria todo resto, e, sinceramente, fiz isso, podem o fazer também.