04/12/08 - 21:40

Humanidade. Pode-se dizer que você nunca teve, ou que nunca esteve lá, desde o começo. Realidade não. A realidade estava ali, ela sempre vai estrar. Realidade. Uma palavra de quase impacto, costuma mostrar tudo aquilo que não queremos vez, na maioria das vezes:

Era um cara legal, jovem. Mas isso não quer dizer que ele não era chato e velho. Não sentia nada, tristeza ou felicidade, e dizia que isso era muito pior. Era como uma árvore seca e velha na estrada. Tão impactante quanto uma. Tão memorável quanto uma. A noite corria devagar e a rotina mais do que nunca parecia ser uma grande muralha de concreto, sem suavidade ou nem um pouco doce. O maior dos movimentos não a tiraria dali.

A realidade é como uma porta. Uma porta pela qual você nunca vai passar. Talvez ela deixe você olhar pelo olho mágico, com um tempo. E você vai olhar. Então ela vai perguntar se você gosta e você dirá que sim, como uma criança hipnotizada por um pirulito. Então tudo sumirá e você voltará e ficará lá, olhando absolutamente nada. Nada sobra.

Chegou em casa com o mesmo tom de neutralidade de sempre. Sentou-se no sofá e olhou para o nada por alguns momentos. Apenas os olhos do gato brilhavam, noturnos e belos, mas ainda assim não pareciam dizer nada. A sinceridade fora perdida, e não há nada para ser procurado em um noite como aquela, nem como a de ontem, ou a de anteontem. A verdade está sentada ao seu lado, sorrindo para ele.

Se transar é uma forma de chutar a morte e dizer que há odeia, sangrar os pensamentos é uma forma de fazer tudo isso e jogar uma pedra na cara da realidade. Mostrar que alguma coisa é possível e nem tudo está perdido. Ainda.

De repente acendeu a luz. Colocou um disco para tocar. Não se sentia tão mal.

02/12/08 - 22:34

- Pai, como é morrer?
- É quando você vai para um lugar diferente, mas é muito diferente, crianças não entram lá.

30 anos depois:

- Simplesmente não serve. – disse o editor.
- Mas e quanto à originalidade?
- Não é original, não serve. Agora dê licensa que há outro escritor que preciso ver.

Chegou em casa, colocou alguma música para tocar. Tem dias que a coisa flui, tem dias que a coisa não flui, acostume-se com a vida, meu amigo. Comeu pão com manteiga, queijo é para fracos. Tocaram na campainha, o que era um milagre, já que nunca recebia visitas.

- Oi – disse ela, com o cabelo curto e uma cara curiosa.
- Oi – respondeu.
- Sou sua fã, sério, tenho todos os seus contos, todas as revistas que o publicaram, inclusive aquela alemã, embora eu não consiga ler.
- Ah, eu acho que te consigo uma tradução, entra.

Ofereceu um refrigerante à ela. O copo estava mais ou menos sujo, mas, vendo do ponto de vista bom estava mais ou menos limpo também. Pegou uma caixa de papelão com estampas de uma televisão de plasma. Revirou um monte de papéis. Pegou um.

- Aqui está, não está corrigido, mas dá pra passar a idéia, eu acho.
- Ah, muito obrigada, sou sua fã mesmo.
- Ah é?
- Sim, eu tenho todos os seus livros
- Mas só publiquei três.
- Sim, e tenho aquela edição de histórias em quadrinhos que você fez com Renan Ferreira, “O grande e enorme nada com nada”.
- Ah, sei.

Ficaram um bom tempo batendo papo. Ela falava basicamente da sua devoção por ele. Ele, por sua vez, tentava ser o mais educado possível, talvez conseguiria sexo naquele dia, já que não podia se esperar mais do que isso de uma pessoa que pensasse como ele, realmente. Tomaram toda a garrafa de refrigerante. Começava a anoitecer. Disse que ia ao banheiro e tentou arrumar a sua cama – o que era de fato um milagre – da melhor forma possível para despistar a falta de faxina e arrumação do resto do apartamento.

Anoitecia e eles continuavam conversando. Quando ele ia tentar o primeiro movimento – o qual nem ele mesmo sabia direito como seria – um som estridente de buzina fez-se ouvir pelo cômodo inteiro. Vinha da rua. Rapidamente ela olhou pela janela. Virou-se e começou a guardar alguns papéis que havia trazido consigo.

- É meu marido, preciso ir.
- Espera aí, quantos anos você tem?
- 19.
- E você é casada?
- É, é o amor.
- Ah...

Despediram-se. Ele levou-a à porta. Do carro, o marido dela abanou a mão para ele e gritou algo como “gosto muito dos seus livros” ou “não coma minha esposa” ou “grande perdedor” ou algo parecido. Recusado, sem dinheiro para o aluguel e com fãs casadas, só pôde fazer uma coisa:

- Tomara que eu já seja velho o suficiente para entrar.

01/12/08 - 20:57

Pra que esperar alguma coisa? Pra que achar que amanhã vai estar tudo melhor, quando na realidade é um monte de coisas indo como uma grande bola de gordura e neve, pronta pra bater sempre na tua cara e te deixar triste, no final das contas. Então é só uma questão de tempo para que toda aquela gordurosa tristeza volte e te deixe triste de novo, e assim por diante, até o dia em que morremos, talvez não de cansados dessa rotina cretina, mas porque nós precisamos ir. Com certeza tinha mais o que viver no mundo, mais o que ver, mas você não viu, você morreu, e agora as moscas de cemitério comem você, dentro do seu caixão, ou, se você tiver sorte, as pessoas ainda olham para você com algum respeito, bem repousado na melhor cabeceira da sua antiga casa. Ali está a urna com o que sobrou da cremação.

Ah, desculpa, isto não é um conto, ou uma poesia, como vocês podem ter notado. Não é nem um monólogo, porque se me pedissem para escrever um, eu não saberia como fazer. Existem dois tipos de pessoas, as que são os grãos de areia, e as que são os pés. Os pés cretinos pisam nos grãos de areia e não há nada que estes possam fazer, porque afinal de contas eles são meros grãos de areia, e se imaginar isso é deprimente, quando acontece com a gente é mais deprimente ainda.

Estou com todo o tempo do mundo em um inferno subtropical esperando que tudo funcione devidamente e eu possa dormir hoje à noite, mas até dormir é difícil quando se é o maldito grão de areia. Aqueles escritores malditos eram um bando de bichas egocêntricas, diziam que se você quisesse escrever alguma coisa decente, tinha que passar pelo aperto. Bom, estou passando pelo aperto, e neste exato momento estou desconfortavelmente sentado numa cadeira quebrada, em um quarto escuro tentando sobreviver aos belos 35 graus que parecem me chutar na cara.

O fato é que estou sozinho. Gosto de ficar sozinho, adoro, é realmente ótimo ficar sozinho. Para ser sincero com vocês, um dos momentos onde sou mais feliz é quando estou no banheiro fazendo as necessidades. Não estou mentindo, fico lá sentado, olhando para o teto, as paredes, apreciando todo aquele silêncio, toda aquela falta de humanidade, toda aquela distância da família e do resto. É tão gostoso. Normalmente um livro me acompanha para o banheiro, e isso me faz ainda mais feliz. É um dos únicos momentos em que não me sinto o pequeno grão de areia. Ironicamente, Deus me deu um problema intestinal e normalmente só teho esse momento de bonanza uma vez por semana.

O que há de tão incrível com a competição pelo saber? Qual é a glória em ver que eu sei mais do que o cara ali, ou o cara lá. Nunca pude responder essa pergunta, em parte porque acho que não sou melhor do que as pessoas, e também porque eu acho que realmente não há uma resposta. Eu realmente não ligo se você sabe mais de literatura, música, inglês ou o diabo do que eu, o que eu sei, apesar de não me levar muito longe, é o suficiente para mim. Às vezes me pergunto se nasci conformado ou anormal.

Essas correrias me enxeram o saco, agora ando muito devagar, ando tão devagar quanto posso andar, não tenho pressa para chegar a lugar nenhum. Acho que isso me torna o mais excêntrico grão de areia da caixa, já que todos os outros correm tentando virar pés para mostrarem que podem e blábláblá, tudo o que eu disse no parágrafo a cima. Sim, verdade, eu não corro mais, primeiramente porque enjoei disso, passei meu ano correndo para chegar em algum lugar, e veja só, se eu cheguei em algum lugar, é realmente muito parecido com o lugar de onde eu parti. Alguém mais se sente assim? Bem-vindo ao clube. Além desse motivo, meus joelhos não agüentam mais, estou tão cansado, meus joelhos doem tanto e não tenho a mínima idéia do porquê. Pelo menos até agora eu não encontrei um caroço enquanto coçava o saco.

Tudo bem, só depois deste exato momento eu me perguntei porque estou escrevendo isso. Na verdade eu não sei, o calor está me fazendo delirar, talvez. Estou nesta masturbação mental e estou adorando, não pelo fato de ser masturbação, mas porque está fluindo, eu mal paro para pensar, é como se eu soubesse quando o parágrafo acabasse. E o mais incrível de tudo é que até agora não fiquei sem assunto.

Sou azedo como um limão podre, ou seriam os maduros os mais azedos? Imagine que sou o mais azedo do limoeiro, e tenho um furo do qual sai meu líquido azedo que cai em outros limões, e isso faz com que todo o limoeiro fique brabo comigo. Acho que é isso que está acontecendo na minha vida real. De repente todos os outros limões estão virando a cara para mim. Estou sozinho aqui nesse lugar, escrevendo essas besteiras não porque tenho uma vontade indomável de escrever compulsivamente como 99% dos escritores clichês, mas porque ninguém quer passar o dia comigo. Tudo bem, não tenho muitas opções, em alguns limões caiu líquido demais. Metaforicamente falando estes eram os mais verdes. Eu fiquei com os quase podres ou novos demais e transformei-os em pequenos monstrinhos sem querer. Desculpa por isso, pessoal. Acho que meu ego acabou de sair por uma cratera na minha cabeça.

Tenho dedicado todo o meu tempo ao cinema porque não tenho coisa melhor para fazer, o que não deixa de ser uma coisa ruim, porque quando estou apreciando o cinema, estou sozinho. É quase como fazer as necessidades, mas não é tão gostoso: não estou nu. E com o cinema descobri que além de escritores, existem muitos cineastas que são muito ruins também, além dos muito bons. Quando listamos os bons, damos alguns exemplos e seguimos para o clássico “etc.”, bem como quando listamos os maus. Acho que neste exato momento me encontro entre o etc. dos maus. Um dia talvez eu vá para o etc. dos bons. Desde que eu fique no etc. e não em outro lugar, está ótimo.