Pensem comigo, vocês não acham que a pior das ofensas que uma pessoa pode dizer para outra é "continue assim"? Talvez "você é muito simpático" seja pior, mas "continue assim" é como um chute no saco, hein.
25/05/09 - 22:01
Caiu no chão. Batia em seu vestido azul em uma tentativa vã de limpar toda aquela poeira encrustada na queda. Curiosa, pensava onde estava. Estava perdida? Encaracolava uma das mechas do cabelo loiro enquanto fazia-se perguntas de onde estaria. Se levantou e começou a caminhar pela rua, desnorteada, procurando por alguma coisa que pudesse compreender, mas tudo parecia brilhar em meio à sujeira e pessoas. E que pessoas! Pareciam tão enfadonhas e espantadas ao mesmo tempo com a presença dela. Como se nunca tivessem visto uma pequena garotinha em um vestido azul antes. Tudo bem, estava um pouco suja, mas ainda assim, pelo menos 80% apresentável. Ainda assim, fitavam-na com espanto. Um espanto que quase fugia, perdido na tristeza nos olhos daquelas pessoas.
O sol parecia brilhar no céu um pouco nublado. Garotinhas do seu tamanho passavam por ela, fitando-na com um misto de curiosidade e admiração. Ela tentava fazer trejeitos e agradecer, tentando parecer o mais comportada possível, mas pobre pequena, tropeçou em uma pedra enquanto caminhava. Ergueu-se, torcendo para que ninguém tivesse visto aquilo. Que ridículo! Uma menininha comportada como ela não podia cair assim em meio às pessoas. No começo, achou que realmente, ninguém havia visto, mas depois parou de iludir-se, e entristeceu-se com o fato que acabara de constatar: encontrava-se em um país de desgraças onde ninguém ria.
encontrava-se aqui.
25/05/09 - 21:42
- Seu grande filho da puta!
A única coisa não embriagada e significativa jogada contra aquelas paredes azul celeste. Às vezes a gente tem que ficar a vida toda procurando alguém que jogue os dados tão bem quanto nós, para então tentar ser feliz. Às vezes a gente passa a vida toda jogando dados sozinho, jogando bem, mas jogando sozinho. Às vezes a gente erra uma jogada e acaba comendo uma panela cheia de merda e apodrecendo no horizonte do pretérito das mentes de pessoas que conseguem sentir a chuva na rua, porque você gastou tanto tempo jogando pessoas e dados que esqueceu-se de como é ter alguma sensação.
- Eu sou muito mais homem do que tu é e vou quebrar essa tua cara!
Segurei braços embriagados com uma cara séria e curiosa, olhando para os outros, sem saber o que fazer, era apenas o começo, então vieram as lágrimas, que não poderiam faltar, elas sempre estão presentes, são os espectadores eternos de todas as cenas significativas: engraçadas ou tristes. Sempre apoiadas na pele, assistindo ao espetáculo, momentos antes de secarem, uma vida breve, porém divertida. Minha vontade era de devolver a destreza com minha mão cheia naquela face, mas me manti calmo e curioso, evitando qualquer ímpeto. Acabamos apenas eu e meu amigo, além de um terço de uma garrafa de refrigerante ocupada com cachaça e suco de uva. Conversamos por um longo momento. Não me sentia triste nem feliz, a vida seguiria, sempre nesse padrão, uma sequência randonômica de fatos não-ligados entre si.
Dormi. No dia seguinte precisei acordar cedo, ir para um determinado lugar, algum lugar. Uma carona. Uma campainha. Uma porta trancada. Uma chave quebrada e uma porta emperrada. O chaveiro ficava a umas cinco quadras e uma lomba de distância. Suspirei e segui, era apenas sábado de manhã, lembrei-me do dia passado. Segui pela rua, como um trabalhador pega o ônibus matinal para o ofício...
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